APO Antropologia: Resenha - Documentário ESTAMIRA.



INTRODUÇÃO:

O diretor e produtor Marcos Prado, brasileiro, no segundo semestre de 1994, teve a curiosidade em descobrir o destino do lixo que era produzido em sua residência, resolveu visitar o aterro sanitário conhecido por Lixão do Jardim Gramacho, localizado no Rio de Janeiro. Durante sua visita,  Marcos Prado se surpreendeu com o mar de lixo de odor fétido, situado às margens da Baia de Guanabara, e que ocupa atualmente uma área de aproximadamente 1,3 milhões de metros quadrados. Ficou emocionado ao saber que milhares de pessoas, incluindo homens, mulheres e crianças viviam catando restos de resíduos daquele lixão para sobreviver no caos do absoluto abandono e tristeza. Aprendeu com suas visitas ao lixão, para fotografá-lo,  que o contingente humano do Aterro funcionava como um termômetro social. Ex-traficantes, ex-presidiários, ex-domésticas, ex-trabalhadores, velhos e jovens desempregados: todos juntos se misturavam ali em busca do sustento vindo do lixo e, muitas vezes, em busca do alimento que ali encontravam. Ele comenta: “No ano de 2000, seis anos após ter iniciado meu projeto, esbarrei com uma senhora sentada em seu acampamento, contemplando a paisagem de Gramacho. Aproximei-me dela e pedi-lhe para tirar o seu retrato. Ela me olhou nos olhos consentindo e disse para me sentar a seu lado. Conversamos por um longo tempo. Estamira era seu nome. Contou que morava num castelo todo enfeitado com objetos encontrados no lixo e que tinha uma missão na vida: revelar e cobrar a verdade. Tornamos-nos amigos. Um dia, tempos depois de conhecê-la, ela me perguntou se eu sabia qual era a minha missão. Antes que eu respondesse, Estamira disse: ‘A sua missão é revelar a minha missão.’ Decidi fazer um documentário sobre a vida dela.”

É assim que Marcos Prado conhece essa senhora de 63 anos de idade, que sofre de distúrbios mentais, mas que por 20 anos era visitante assídua do lixão, do qual tirava os meios de subsistência. Marcos Prado manteve um contato constante com essa mulher para a produção do documentário que leva o nome dessa senhora, “Estamira”, e do qual iremos tecer algumas observações que nos mostram que Estamira, apesar da esquizofrenia era uma mulher de garra, determinada a sobreviver em um mundo desgastado pela falta de compaixão, ideais e desejo pela sustentabilidade social do mundo como um todo.        

SÍNTESE:

Filme – ESTAMIRA:
 
O documentário mostra o dia-a-dia de Estamira no lixão e em sua humilde residência, indo a fundo, a seu passado de glória e dor, de uma mulher guerreira, que se tornou mãe e avô, mas que mesmo com todos os devaneios da vida, jamais se curvou aos obstáculos, mostrando firmeza em tudo que fazia e dizia, dando um exemplo de vida a todos nós.

AVALIAÇÃO:

O documentários Estamira é rico em detalhes de uma sociedade que objetiva que os meios de vida existentes estão acabando aos poucos e poucos são os que enxergam isso e estão tomando atitudes positivas para mudar essa situação.

Estamira mostra que, mesmo sofrendo de distúrbios mentais – esquizofrenia; ela é muito mais lúcida que muita gente, pois ela não está num lixão como catadora apenas por estar. É deste lixão que ela tira meios para sobreviver, do lixo que já foi eliminado por outros humanos, que foi classificado como impróprio e do qual, outros indivíduos, através de um seleção, vão utilizar para coexistir.

“Economizar é maravilhoso, quem economiza têm.” Frases como esta, ditas por Estamira no decorrer do documentário alertam contra o mau uso que a sociedade faz de tudo o que pode ser reaproveitado, reciclado ou reutilizado. Precisamos prestar atenção nas coisas que temos para não desperdiçar, pois como acontece infelizmente em todo centro urbano, e como dito por Estamira, “quem tem mais menospreza o que possui e joga fora.” Ela tem um olhar crítico para tudo o que existe em sua volta, criando um mundo único, mas real, de um ângulo diferente, com vocabulário diferente, mostrando o quanto ela se diverte ao passar a mensagem que todos precisamos estar unidos, ajudando-nos através da conscientização que o planeta precisa sobreviver, pois dele depende o nosso bem estar, e que precisamos ser mais humanos com nossos semelhantes, pois depende toda comunidade.

O documentário se desdobra com a busca pelo passado de Estamira, mostrando uma mulher que na infância sofreu maus tratos, relembrando momentos ruins, como aquele em que foi levado pela própria avó aos 12 anos para morar em prostíbulo, e só saiu aos 17 para casar-se. Casou-se mais de uma vez, foi  traída todas às vezes, inclusive sofrendo abandono por parte do primeiro e abandonou o segundo, este último que  a obrigou a internar sua mãe em um sanatório por ter distúrbios mentais também. Teve uma filha (Carolina) no primeiro casamento, um filho (Hernani) no segundo; uma terceira filha foi criada por outra família; foi violentada por bandidos duas vezes, e apesar de ser muito religiosa, acabou abandonando sua fé por uma repulsa a um deus que deveria tê-la ajudado e que nada fez. E após todos esses transtornos em sua vida Estamira passou a ter delírios, e é através de suas alucinações que encontra formas de se vingar ao que passou e escapar do seu passado.

Estamira tem uma casa simples, mas repleta de coisas que ela encontra no lixão, inclusive alimentos que são reaproveitados por ela, se classifica como “homem par” (mulher, mãe), tem orgulho em se chamar Estamira, pois acredita que conhece um segredo superior a tudo que precisará revelar aos poucos aos que quiserem mudar o comportamento, mostrando uma sociedade desumana, corrompida, dominada e alienada por uma classe dominante que apenas compra cada indivíduo para dar sua força de trabalho, sendo descartado como objeto insignificante logo após ter sido esgotado. Estamira vive na loucura produzida pela questão social, das desigualdades sociais. Ela acha que muitos indivíduos que já morreram e outros que vivem hoje já passaram por muito sofrimento maior que o sofrido por Cristo, o Salvador do Cristianismo. Engraçado como Estamira, apesar da avaliação mental tida como precária, não gosta de chamar os resíduos de lixo, afinal dele vem sua sobrevivência, mas fala da falta de cuidado de alguns indivíduos em não serem mais seletivos com o lixo descartado, inclusive com a separação correta de cada resíduo.

Fala do “lúcido” (o que ela vê, o que consegue enxergar), e da “lucidez” (aquilo que ela consegue ver e aprender com o cotidiano). Usa termos como o “Controle remoto” (dor física), “astros e astros negativos” (vozes em sua cabeça),  o “trocadilho” (referência ao deus que a abandonou), “na escola não se aprende, se copia” entre várias outras, com as quais podemos absorver o magnífico mundo de Estamira, sua lucidez inlúcida que transborda sabedoria e conhecimentos natos ao homem mas não utilizados.

Instintivamente Estamira nos mostra que a coisa mais importante ao individuo é ter força de vontade, disposição e disciplina para fazer a coisa certa, além da organização em ter uma rotina direcionada ao bem estar, físico, social e financeiro.